Em 1998, quando era editor do site FutebolSC, tive uma conversa com um ex-presidente do Figueirense, que na época penava com dívidas e precisava de qualquer forma levantar o clube e a autoestima perdida. Dentre outras coisas, uma parte desse papo ficou gravada na minha memória e foi remoída com frequência durante os anos seguintes: segundo o dirigente, a tendência natural era que os clubes colocassem cadeiras em todo o estádio, que aumentassem os ingressos e as mensalidades e oferecessem serviços diferenciados para atrair torcedores com maior poder aquisitivo.
Numa época ainda amadora e romântica para os clubes catarinenses, quando a participação na Série A e a verdadeira profissionalização eram apenas um sonho, recebi essa afirmação com indisfarçável surpresa. Mas ele foi além, dizendo que para os clubes é melhor ter um número menor e mais qualificado de torcedores no estádio. Isso reduz os custos com segurança e logística, além de aumentar a renda com um público que consome produtos mais caros sem reclamar nem pechinchar. Assim, seria possível oferecer serviços melhores e mais personalizados, com lojas nos estádios e muito mais. Então, naturalmente perguntei: “e o povão, Presidente?“. A resposta veio rápida, como se estivesse pronta: “o povão vai assistir pela TV, teremos transmissão de todos os jogos a um preço mais acessível“.
Naquele tempo, as palavras dele soaram como uma loucura, um delírio de alguém que desejava intimamente elitizar o futebol, um esporte tradicionalmente do povo. Hoje percebo que, ao contrário, eram palavras de alguém muito inteligente e com uma visão de futuro que não consegui alcançar. Pois não é que suas “profecias” estão se materializando, com mais rapidez a cada ano?
Em 2010, quase doze anos depois, o que os clubes vêm fazendo – e o Avaí não é exceção – é a implantação gradativa desse processo de elitização, cujo auge atual é a discussão acerca do aumento de mensalidade dos sócios – não o aumento em si, mas os percentuais aplicados. Grosso modo, o que o Avaí está querendo, nas entrelinhas, é manter o sócio “rico” e sugerindo ao povo que assista aos jogos em casa.
Pode soar cruel, mas é verdade. É claro que o clube não vai a público dizer isso, mas suas atitudes demonstram esse pensamento com clareza. É claro que o Avaí sabe que, com esse aumento, vai reduzir o número de associados de início. Mas será que o clube realmente QUER esse associado que está saindo? Ou prefere alguém mais “elitizado” no seu lugar? Não é mais negócio deixar o povão abandonar e investir na elite?
Conheço gente – mais do que vocês possam imaginar – que não vai ao estádio porque gosta de assistir aos jogos como a um espetáculo teatral – sentados e levantando apenas nos momentos de clímax. Esses torcedores não suportam ter que ficar pedindo insistentemente para que as pessoas à sua frente sentem o tempo todo. Mais que isso, tem alguns desses que não leva mulher e filhos ao estádio por causa das baixarias – incluindo brigas – que acontecem nos jogos de maior público. Teve gente – mais de uma dezena de pessoas – que me confidenciou que não vai sair de casa, pegar algumas horas de fila e pagar para ter que aturar bêbados frustrados jogando cerveja pra cima, desrespeitando as outras pessoas e puxando confusão. Alguém vai dizer que esses são menos avaianos do que os outros? Besteira, são apenas diferentes.
E alguém pode dizer então: “ah, que comprem um camarote com todo o conforto que desejam”. O problema é que o camarote já é destinado para uma classe ainda mais alta. O torcedor que citei no parágrafo anterior faz parte da classe média, que cresceu muito nos últimos anos e, ela própria, se elitizou. E está hoje nas arquibancadas (ou cadeiras), buscando o máximo de conforto que puder ter. Então, esse aumento parece uma “seleção natural”: o povão vai dar lugar para a classe média, cada vez mais exigente. E é exatamente isso que os clubes desejam.
Essa postagem já ficou longa demais. Daqui a pouco faço outra, completando o raciocínio com base em algumas declarações que li.
Em tempo:
1) É claro que os torcedores que desejam a elitização não vão se manifestar publicamente. Seriam massacrados pelo povão;
2) Continuo sendo veementemente contra esse aumento absurdo nas mensalidades. Essa postagem é apenas uma tentativa de entender o processo que está acontecendo.